A região era povoada pelos índios Tupi-Guarani, que a denominavam Piracema, PIRÁ “Peixe” e CÊMA “Saída”, ou seja “saída dos Peixes” ou “muitos peixes”.

Com a chegada dos portugueses à Baía de Guanabara, a vasta região da Baixada de Santa Cruz foi doada a Cristóvão Monteiro. Em 1589, sua esposa, a Marquesa Ferreira, doou à Companhia de Jesus metade do que tinha herdado ali. Os Jesuítas expandiram sua propriedade, comprando, em 1616, terrenos dos herdeiros de Manuel Veloso Espinho e, em 1654, mais 3 léguas de Tomé Correia de Alvarenga e outras do genro de Antonio de Alvarenga, ficando com um total de 10 léguas da Baía de Sepetiba até Vassouras, o suficiente para fundarem a Aldeia de Itaguaí, hoje um município fluminense.

Esse imenso latifúndio, a poderosa fazenda de Santa Cruz, se tornou a fazenda mais desenvolvida da Capitania, com milhares de escravos, cabeças de gado e variados tipos de cultivo, manejados com técnicas avançadas para a época. Obras de arte emprestavam uma grande categoria à sua igreja e convento, que possuia hospedaria para viajantes, moradia dos pobres, hospital e escolas profissionais. Destacava-se a escola de música, com orquestra e coral integrados por escravos, o que tornou Santa Cruz o primeiro conservatório musical no Brasil.

A abertura do caminho dos jesuítas, que possibilitava a ligação da região com a cidade do Rio de Janeiro, posteriormente se tornou a Estrada Real de Santa Cruz que, vinda de São Cristóvão, corresponde às atuais avenidas Dom Helder Câmara, Ernani Cardoso, Intendente Magalhães, Marechal Fontenelle, de Santa Cruz e Cesário de Melo e à rua Felipe Cardoso. Os jesuítas participaram da construção do seu prolongamento no trecho da estrada nova para São Paulo, que, em Itaguaí, subia a Serra da Calçada em “pés-de-moleque”, rumo a São João Marcos.

Os religiosos realizavam obras arrojadas de engenharia – principalmente de irrigação – abriam diversos canais e valas para escoamento e drenagem das baixadas alagadas pelo rio Guandu e seus braços, construíam diques e pontes. Entre elas destaca-se a famosa “Ponte dos Jesuítas”, de cantaria, erguida em 1752 com a finalidade de regular o volume de água do rio Guandu, existente até hoje e tombado como monumento histórico pelo patrimônio histórico e artístico nacional.

Em 1759, quando os jesuítas foram expulsos pelo Marquês de Pombal, o patrimônio da fazenda de Santa Cruz reverteu para a coroa portuguesa, subordinando-se aos vice-reis. Os jesuítas dispunham então de 22 currais, com cerca de 8.000 cabeças de gado. Os maiores eram o Curral Falso, o da igreja, de São Francisco, de São João e de São Marcos.

Com a chegada da Família Real no Brasil, em 1808, a fazenda se transformou num local de veraneio para Dom João VI e, desse modo, o antigo convento foi adaptado as funções de Paço–Real e passou a ser chamado de Palácio Real de Santa Cruz. Ali cresceram e foram educados os príncipes regentes Dom Pedro e Dom Miguel. Também nessa época foi introduzida na fazenda a cultura do chá, de ótima qualidade, feita por chineses, no local conhecido hoje como “Morro do Chá”.

Dom Pedro era presença constante na fazenda e, na sua longa viagem histórica a São Paulo, em 1822, onde proclamou a Independência do Brasil, deteve-se ali, em reunião com a presença de José Bonifácio.

No reinado de Dom Pedro II, a fazenda se transformou na Fazenda Nacional de Santa Cruz. Lá, em 1842, foi inaugurada a primeira Agência de Correios do Brasil e, em 1871, a princesa Isabel assinou a Lei de Libertação de todos os escravos do Governo Imperial. No final de 1881, Dom Pedro II inaugurou o matadouro de Santa Cruz, tido como o mais moderno do mundo na época. Com a Proclamação da República, Santa Cruz perdeu seu prestígio “imperial”, mas já era uma cidade, com palacetes, solares, comércio e logradouros. Vieram então os imigrantes estrangeiros, árabes e italianos que expandiram o comércio local e os japoneses que foram trabalhar na agricultura.

O trem chegou com a inauguração do ramal de Mangaratiba até a estação de Santa Cruz, em 2 de dezembro de 1879. Destinava-se ao transporte especial de carnes do novo matadouro até a estação da Corte e ao transporte de passageiros. Além do ramal do Matadouro, inaugurado em 1884 por Dom Pedro II, e do ramal da Base Aérea, a linha férrea prolongava-se para Itaguaí, chegando até Mangaratiba (RJ). Atualmente esses ramais foram extintos, passando Santa Cruz a ser a última estação dos trens elétricos vindos da Estação Central Dom Pedro II.

No governo Getúlio Vargas (década de 1930), foram feitas grandes obras de saneamento e criadas colônias agrícolas. Em 1938, famílias japonesas se estabeleceram em lotes nas estradas da Reta do Rio Grande e de São Fernando, produzindo quantidade expressiva de alimentos, que conferiram a Santa Cruz o apelido de “celeiro” do Distrito Federal.

Com o advento da aviação, surgiria a época dos grandes dirigíveis do Conde Zeppelim, para um dos quais, o “Hindenburg”, se construiriam em 1934 enormes hangares, um deles existente até hoje e que deu origem do aeroporto Bartolomeu de Gusmão e à atual Base Aérea de Santa Cruz.

Nos antigos campos de lavoura surgiriam indústrias, como a nova Companhia Siderúrgica Nacional (COSIGUA – Grupo Gerdau) na década de 1970, a Usina Termoelétrica de Santa Cruz, o Distrito Industrial de Santa Cruz (1975), com a Casa da Moeda do Brasil, a White Martins, a Valesul (alumínio) e outras empresas. Atualmente, está sendo construída em grande área entre os canais de São Francisco e São Fernando, a Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), com extenso píer na Baía de Sepetiba.

Nas décadas de 1970/1980 a CEHAB construiu diversos conjuntos habitacionais na periferia de Santa Cruz, destacando-se os conjuntos de Antares, Pistóia, Otacílio Camará (Cesarão), Olímpio dos Santos (Urucânia), Boa Esperança, João XXIII, Guandu, Miécimo da Silva, São Fernando, Rio Grande, Novo Mundo, Alvorada, entre outros.

Os principais acessos à Santa Cruz, além do trem, são a avenida Cesário de Melo (antiga Estrada Real), o Largo do Curral Falso, a rua Felipe Cardoso e a avenida Brasil, de onde começa a Rodovia Rio-Santos, construída na década de 1970.

Como atrações do bairro destacam-se a Praça Ruão, com o “Marco Onze” e o 1º Batalhão de Engenharia - instalado na antiga Fazenda Real de Santa Cruz - a igreja N. Sra. da Conceição, a fonte Wallace, o morro do Mirante, o Hangar do Zeppelim, a ponte dos Jesuítas, o palacete Princesa Isabel e a Cidade das Crianças Leonel Brizola, que funciona como Parque Temático da Prefeitura, destinado especialmente, as crianças e adolescentes.

Antiga Estação Ferroviária do Matadouro
Endereço: Situada no km 56.426

A estação ferroviária do Matadouro, localizada em Santa Cruz, foi criada com o objetivo de agilizar o transporte da carne verde até o centro da cidade, afim de que esta pudesse chegar em boas condições para o consumo da população. Esta estação distingue-se, portanto, daquelas que contribuíram diretamente com o surgimento de seus bairros, prestando, entretanto, uma contribuição decisiva por longo período, para o desenvolvimento econômico de Santa Cruz, facilitando o escoamento da carne abatida no Matadouro local. Somente em 01/01/1884 é que foi inaugurado o ramal do matadouro, cujos trens ficaram conhecidos pela população, durante vários anos, pelo nome de MATRUCO (do verbo matrucar, que significa esfolar, esquartejar), cujo destino era o Entreposto de Carnes Verdes em São Diogo, que já tinha estação ferroviária desde 1880. A implantação desta estação ferroviária em 1884 justificou-se, exclusivamente, pela presença do Matadouro de Santa Cruz.

É uma edificação em estilo eclético, de um pavimento, com revestimento em argamassa desempenada e planta regular determinando caixa retangular, locada sobre plataforma cimentada, em curva.
Hoje a estação está abandonada e está localizada dentro do Quarteirão Cultural do Matadouro. Pretende-se transformá-la em algo que fale da memória e da história local.

Fazenda Imperial de Santa Cruz
Endereço: Santa Cruz

Em 1821 D.João retorna a Portugal e deixa em seu lugar seu filho D. Pedro I que viria a tornar-se imperador do Brasil com a proclamação da Independência ocorrida em 7 de setembro de 1822. Acostumado a visitar Santa Cruz, em companhia de seu pai D. João VI, D. Pedro I tornou-se um grande frequentador da Fazenda, agora Imperial. Por ocasião da proclamação da Independência do Brasil, ao retornar de São Paulo comemorou em Santa Cruz, com os membros do seu séquito, o grande ato que tornava o Brasil livre do domínio português, antes de chegar ao Palácio de São Cristóvão. Por muitos e muitos anos D. Pedro I continuou a visitar a Fazenda de Santa Cruz.

D. Pedro I abdica em 1831 ao trono de imperador do Brasil e volta a Portugal. Fica em seu lugar seu filho D. Pedro II, ainda menor. Durante o longo reinado D. Pedro II continuou a visitar Santa Cruz, sempre em companhia de sua família, onde destacava-se a princesa Isabel, que viria a ser chamada a Redentora, acabando com a escravidão em nosso país. D. Pedro inaugurou muitas obras em Santa Cruz: Matadouro, Colégio Imperial (mais tarde Hospital D. Pedro II), Estrada de Ferro, o 1º telefone no Palácio Imperial, a 1ª agência fixa dos correios no Brasil inaugurada no dia 22 de novembro de 1842 entre outras.

É no governo de D. Pedro II que Petrópolis começa a ser visitada pela Família Imperial, pois o clima mais ameno acabou cativando a todos. Em face de todos os acontecimentos constata-se, com o passar dos anos, uma série de modificações na arquitetura do prédio principal da fazenda de Santa Cruz, gerando novas formas de uso: Convento na era jesuítica, Palácio Real no tempo de D.João VI, Palácio Imperial com novas reformas no tempo de D. Pedro I e finalmente, no período republicano, com a construção de mais um andar, passou a aquartelar tropas do Exército. Hoje é a Sede do Batalhão-Escola de Engenharia, o Batalhão Villagran Cabrit

Hangar do Zeppelin
Endereço: Base Aérea de Santa Cruz

O Hangar do Zeppelin de Santa Cruz começou a ser construído em 1934 e concluído em 1936. Suas estruturas vieram da Alemanha e a mão-de-obra foi brasileira, supervisionada por técnicos alemães. Em seu interior podia ser acomodado um Zeppelin. O Hangar mede 274m de comprimento, 58m de altura e 58 de largura. É o único ainda existente , já que os outros dois, construídos na Alemanha, foram destruídos durante a segunda guerra mundial. Dois Zeppelins faziam a linha da América do Sul, por serem os melhores e os maiores: Graff Zeppelin e o Hindenburg . Partiam de Frankfurt na Alemanha, atracavam em Pernambuco e desciam em Santa Cruz (Rio), onde eram recolhidos dentro do Hangar para a manutenção, o reabastecimento e o embarque de passageiros.

Com o incêndio do Hindenburg em 1937, nos Estados Unidos, o projeto dos Zeppelins foi cancelado. O Hangar serviu de base para o 1º Grupo de Aviação de Caça da Força Aérea Brasileira, que atuou na segunda guerra mundial. A escolha de Santa Cruz para sediar o Hangar se deveu às condições climáticas, direção dos ventos, velocidade e possibilidade de locomoção através de outros meios de transporte, ligando o bairro à Cidade. O hangar recebeu o nome de Aeroporto Bartolomeu de Gusmão, onde hoje está localizada a Base Aérea de Santa Cruz, o maior complexo aerotático da América Latina.

Marcos Históricos da Cidade do Rio de Janeiro
Endereço: Santa Cruz

Na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro foram identificados dois tipos de marcos erguidos durante a época do Primeiro Reinado. O primeiro tipo servia para assinalar a distância, em léguas, percorrida pela família real, em seu trajeto entre o Paço na Praça XV e o Paço de Santa Cruz ( antiga Fazenda dos jesuítas, hoje Batalhão Escola Villagran Cabrita). Denominado Caminho dos Jesuítas, Estrada Real, Caminho Imperial. Originalmente eram em número de doze (12). Serviam para indicar os limites das terras da Fazenda Imperial de Santa Cruz com as propriedades vizinhas. Historiadores locais afirmam que existiam 31 deles

Matadouro Industrial de Santa Cruz
Endereço: Largo do Bogedão, s/nº

A idéia de se construir o Matadouro de Santa Cruz veio da deterioração do primeiro matadouro do Rio de Janeiro, localizado na Praia de Santa Luzia e criado em 1774. Em 1853 foi transferido para o Aterrado de S. Cristóvão, na Praça da Bandeira. Com o crescimento da Cidade, falta de espaços para o gado ser alojado, equipamentos obsoletos, condições de uso sem qualquer higiene e custos crescentes, o Campo de São José, em Santa Cruz, é escolhido para sediar o novo Matadouro do Rio de Janeiro. Em 1876 é lançada a pedra fundamental e em 09/09/1881 é colocado em funcionamento, com o primeiro abate acontecendo em 04/11/1881. Em 30/12/1881, com a presença de D. Pedro II e membros da Família Imperial, parlamentares, ministros, diplomatas, autoridades e imprensa, o Matadouro é inaugurado oficialmente e de forma festiva.

O Matadouro trouxe um importante desenvolvimento para o comércio local, com a melhora da infra-estrutura, o aparecimento de novas residências e casas de negócios. Com isto, Santa Cruz foi o primeiro bairro do subúrbio a ter iluminação elétrica, graças ao gerador do matadouro. Para alojar as famílias de funcionários vindos de outras localidades foram construídas duas Vilas Operárias, bem próximas para facilitar o acesso às dependências da nova unidade industrial. A história de Santa Cruz tomou um novo rumo com a presença do Matadouro.

Palacete da Princesa Isabel
Endereço: Rua das Palmeiras

O imponente Palacete do Matadouro, construção assobradada que aconteceu após a inauguração do Matadouro, sólida, toda em pedra, tijolo maciço e cal, em estilo neo-clássico, destacava-se em meio a um jardim em estilo inglês idealizado e construído sob a orientacão técnica do urbanista francês François Marie Glaziou, que celebrizou os jardins da Quinta da Boa Vista e do Campo de Santana. O Palacete foi a Sede Administrativa do Matadouro, residência do Diretor e dos médicos que ali trabalhavam. Era o portal de acesso às instalações do Matadouro e aos currais. São dessa época as figueiras centenárias que ladeiam o prédio, verdadeiras sentinelas silenciosas que ali permanecem, os oitis da alameda do Colégio Barão do Rio Branco e as altaneiras palmeiras reais que atestam um tempo de fausto. O prédio também serviu como escola: Santa Isabel (1886) e Técnica Princesa Isabel, já neste século.

Ponte dos Jesuitas
Endereço: Estrada do Curtume s/nº

A "Ponte do Guandu" ou como hoje é conhecida "Ponte dos Jesuítas", foi concluída em 1752, com a finalidade de regular o volume das águas das enchentes. Era de fato uma ponte-represa. Possui quatro arcos chamados "óculos", onde passavam as águas do rio Guandu, que os padres por meio de comportas de madeira, controlavam, retendo-as ou liberando-as conforme o momento exigia. Em seu centro encontra-se, contornada por belas esculturas barrocas, a famosa inscrição latina, sobreposta pela cruz e pelas iniciais (I.H.S.) e data de sua construção.