Tudo começou em uma praia pequena e estreita, inserida entre a insalubre Lagoa do Boqueirão e o Morro das Mangueiras, pequena ramificação do Morro do Desterro. Essa faixa arenosa era chamada de Praia das Areias de Espanha, cuja denominação não se sabe a origem. Entre a praia e o Morro das Mangueiras não havia nada além de um pequeno campo desabitado e nele, em 1751, o Padre Ângelo Siqueira Ribeiro do Prado ergueu seu seminário e uma capela em Louvor a Nossa Sra. da Lapa do Desterro, ambas com fundos para o mar.

Quando, alguns anos depois, a Lagoa do Boqueirão foi aterrada, usou-se na região a terra proveniente do arrasamento do Morro das Mangueiras e a praia transformou-se em um largo com terrenos acrescidos pelo aterro e pelo desmonte do morro. Pelos seus terrenos havia a capela de Nossa Sra. da Lapa, o Convento de Freiras de Santa Teresa, as casas dos primeiros moradores e alguns caminhos antigos. O principal era o Caminho de Mata Cavalos (atual Rua Riachuelo), uma estrada que margeava a lagoa do Sentinela, passava por Mata Porcos (atual Estácio), pelo Engenho Velho e seguia para o Sertão das Minas Gerais. Era a principal via de saída da cidade e por ela também vieram as duas expedições francesas invasoras do Rio no século XVIII. Outro caminho importante era o do Catete ou da Glória, que acessava a zona sul da cidade, cujo início é a atual Rua da Lapa.

Era intenso o movimento naquele corredor de passagem, fundamental para a circulação entre o Engenho Del Rey (Lagoa Rodrigo de Freitas) e a Fazenda do Engenho Velho (Tijuca), evitando os alagadiços e pântanos que limitavam o perímetro do Rio Colonial. O tal Largo, inicialmente, não tinha o nome de Lapa e era chamado popularmente de “Campo dos Formigões”, por causa dos seminaristas. Um tempo depois, virou Campo dos Frades e nele, pela iniciativa dos carmelitas, a Capela de Nossa Sra. da Lapa foi convertida em uma igreja, em 1810, sendo colocada no seu altar mor uma imagem da padroeira em um camarim lavrado por Mestre Valentim. Duas grandes obras públicas de nosso período colonial viriam a valorizar a Lapa:

• O Aqueduto da Carioca ou Arcos da Lapa, obra da primeira metade do Século XVIII, concluída em 1750, construído para resolver o problema de abastecimento de água da cidade, fazendo parte do longo sistema de capacitação oriundo das nascentes do Rio da Carioca ao pé do Corcovado, terminando no Chafariz, inaugurado em 1723, no Largo da Carioca. Foi a maior obra americana de sua época e executada pela mão de obra escrava. Sua última parte do traçado deve-se a iniciativa do governador Ayres Saldanha, sofrendo reedificações no governo Gomes Freire de Andrade, mantendo-se como está nos dias atuais.

• O Passeio Público, pioneiro projeto paisagístico da cidade e primeiro parque. No seu local ficava a Lagoa do Boqueirão, pedaço de mar transformado em um pântano e foco de epidemias. Em 1790, o então Vice Rei, Luis de Vasconcellos e Souza, decidiu aterrar a lagoa usando material do Morro das Mangueiras, saneando essa área e sobre ela foi construído o jardim, sob o traçado de mestre Valentim. Predomina a forma hexagonal, com alamedas, terminando à beira mar e com terraço amplo. O mestre Valentim também dotou o jardim de obras de arte: Fonte dos Amores ou dos Jacarés, os obeliscos e o portão de entrada. Para facilitar seu acesso frontal, foi aberta a Rua das Belas Noites, atual Marrecas. O Passeio Público tornou-se a grande atração da cidade. Após a euforia, chegou a ter um período de abandono até que Dom Pedro II resolveu reformá-lo, convocando o paisagista francês François Glaziou. O francês concebeu um traçado novo de origem chinesa e com lago artificial. Em setembro de 1862 o parque foi novamente aberto ao público. Recentemente, a Prefeitura empreendeu nele uma nova e ampla reforma, recuperando monumentos, equipamentos e o gradil.

Paralelamente, os arredores da cidade iam sendo gradativamente ocupados, fato incrementado pela chegada da família portuguesa aqui em 1808. Na Lapa novos sobrados surgiram nos terrenos das antigas chácaras. O Caminho do Catete, que levava do Largo da Lapa até os nascentes bairros da Zona Sul, disputava a preferência dos aristocratas com as Ruas dos Inválidos, Lavradio e Rezende, recém abertas sobre o aterro do pântano de Pedro Dias, após os Arcos. A área se urbanizava imediatamente e a população, que era de 6.500 habitantes em 1838, se multiplicava.

Na grande reforma urbana da cidade do Rio, realizada no início do século XX, a Lapa passou por grandes transformações. São demolidos casebres, cortiços e o prefeito Pereira Passos manda abrir uma nova avenida, rasgando de ponta a ponta Rua Mem de Sá. Antes disso, havia feito o arrasamento do Morro do Senado e o aterro de antigas lagoas. O prefeito Pereira Passos deu aspecto afrancesado à Lapa, arborizando o largo e construindo o Lampadário. Nessa época, a novidade era o bonde elétrico, revolucionário meio de transporte que levava a população para os longínquos subúrbios da cidade. Estava preparado o terreno para a Lapa se transformar no grande centro da boêmia e vida noturna, sendo o Largo da Lapa chamado de “Capital da Boêmia Carioca”, já no auge dos anos 20.

O bairro tornava-se famoso, no primeiro terço do século XX. Alguns críticos denominavam a região como “Montmartre Carioca”. Os seus restaurantes e cabarés com as mulheres mais famosas, os malandros mais destacados, políticos frequentavam assiduamente o local e o Restaurante Cosmopolita era denominado de o “Senadinho”. O chamado “Ferro de Engomar”, quarteirão de frente ao Largo da Lapa, era o ponto de destaque. Havia também cassinos, shows de variedades e muita música, num ritmo ruidoso e trepidante de suas casas noturnas. Grandes compositores como Noel Rosa, Sinhô, Pixinguinha, Francisco Alves, Assis Valente frequentavam e se inspiravam na região. A malandragem se fez presente com o “Camisa Preta”, “Meia Noite” e o famoso “Madame Satã”. A região da Lapa era um verdadeiro refúgio para uma sociedade despreocupada e boêmia que queria se divertir com muita alegria e pouco dinheiro. Era uma miscelânea de gente, num café se reuniam políticos, empresários, intelectuais, ao lado de uma roda de samba ou a fina flor da malandragem, essa velha Lapa era também marcada pelo ritmo barulhento de seus cabarés, cantada em prosa e verso, intercalada com o tiroteio entre polícia e malandros.

No seu entorno, belos prédios se destacavam, tais como: da Fundição Progresso, fundado em 1871, exemplo da arquitetura industrial da época; do Instituto Nacional da Música, reformado em 1919 e antes era Biblioteca Nacional; do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fundado em 1838; do Cine Colonial, atual Sala Cecília Meirelles (a partir de 1965); o Automóvel Clube do Brasil, inaugurado em 1860 para ser sede de uma sociedade de baile; o Casario da Rua do Lavradio; do Hospital da Venerável Ordem Terceira de Nossa Sra. do Monte do Carmo, construído em 1870 e vários outros.

Após a Segunda Guerra Mundial, ocorreu a decadência da boemia seguida do início do arrasamento do Morro de Santo Antônio, nos anos 50, para abrir novos espaços no bairro do Centro da cidade. Nessa época, a Lapa já apresentava sinais de deterioração de seu uso, com a presença de oficinas mecânicas, hospedarias baratas, prostíbulos e galpões. Quando da chegada dos anos 60, concluiu-se a Avenida República do Chile, na Esplanada de Santo Antônio. Essa mudança possibilitou, no governo de Chagas Freitas, a abertura da Avenida “Norte-Sul”, atual República do Paraguai.

A nova avenida rasgou a Lapa pelo meio, arrasando quarteirões inteiros, afetando as ruas Visconde do Maranguape, dos Arcos, Evaristo da Veiga, o Largo da Lapa, quase por pouco não fazendo desaparecer a tradicional região. Escaparam da destruição o Restaurante Cosmopolita, a Sala Cecília Meirelles, alguns imóveis que restaram no Largo da Lapa e a Fundição Progresso, fechada em 1976 e salva por uma grande mobilização popular. Toda a área de entorno dos Arcos foi demolida, surgindo a atual praça Cardeal Câmara com seu anfiteatro.

Depois desse “racha urbanístico”, que dividiu a Lapa em dois setores, a vida social e noturna voltou a sua atividade vocacional. A sala Cecília Meirelles como importante casa de espetáculos, o Asa Branca como espaço de shows e música popular, o circuito de bares e restaurantes variados, com o Ernesto, Cosmopolita, Bar Brasil, Nova Capela entre outros. A Fundição Progresso foi reformada e utilizada como agitado centro cultural que abriga feiras, festas e exposições. Surgiu o um polo de comércio de objetos e móveis antigos na Rua do Lavradio, com shows ao ar livre no Anfiteatro junto nos Arcos. O grande destaque fica para o Circo Voador, mistura de gafieira e casa de espetáculos, foi reformado após concurso público e reinaugurado pela Prefeitura.

A Lapa se expandiu do seu núcleo histórico e inicial, o Largo da Lapa em direção ao eixo da Rua da Lapa, área de sobrados deteriorados, prédios de apartamentos, com destaque para a ACM (Associação Cristã de Moços) e ao longo da Avenida Mem de Sá. Atualmente, há um comércio caracterizado por bares, restaurantes, boites, hotéis e galpões até próximo a Rua dos Inválidos. Na Avenida Gomes Freire, resistem os antigos sobrados, a igreja ortodoxa de São Nicolau, bares, hotéis e comércio variado predominam. Na área do antigo Morro de Santo Antonio, extensos estacionamentos e o CIEP José Pedro Varela coexistem com a Sede de Maçonaria, Grande Oriente do Brasil.

Tudo está centralizado nos Arcos da Lapa, principal marco da história e tradição, referência principal da região. Atualmente, foi construído grande empreendimento mobiliário, o condomínio residencial “Cores da Lapa”, que irá valorizar ainda mais a região que virou uma grande atração turística da cidade e oficialmente um bairro através de lei de 2012.

Aqueduto da Carioca
Endereço: Largo da Lapa

O Aqueduto da Carioca, mais conhecido como “Arcos da Lapa”, representou a mais importante e útil obra realizada pelos portugueses durante o Período Colonial na cidade do Rio de Janeiro.